Quando você imigra para o Canadá, precisa escolher uma cidade onde vai começar sua caminhada e depositar seus sonhos. Por isso mesmo, precisa prestar atenção e evitar decisões emocionais que num futuro até próximo irão lhe trazer muitos problemas.

Foi o que nós fizemos, escolhendo Ottawa. Levamos em conta diversos fatores, mas um deles não foi esgotado até os últimos detalhes: a minha empregabilidade.

Apesar de ser a capital do país e contar com 1 milhão de habitantes (1.5 milhão se incluirmos na conta Gatineau, no Québec, que na prática é a mesma cidade), Ottawa comporta-se como uma cidade de médio porte.

No Canadá, as cidades médias e pequenas podem não ter uma economia tão diversificada até mesmo como as cidades brasileiras de mesmo tamanho. E é o caso de Ottawa, que se ampara no governo federal e no polo de tecnologia de Kanata North.
Além disso, há as ONGs (um setor bastante complicado), o setor de serviços básicos, o comércio e alguma indústria.
Mas artes profissionais de alto nível? Ottawa praticamente não tem.
Programas de pós-graduação em todas as áreas artísticas até o doutorado? Ottawa não tem.

Quer mais do que isso? Montreal está a 150 km. E Toronto está a 400 km. Ottawa, infelizmente, é o ponto mais fraco do triângulo. E aparentemente quer continuar assim. Não há muito interesse em desenvolver mais a cidade. A maioria dos habitantes está acomodada com seus empregos no governo ou em Kanata e sua vida de casa&crianças-trabalho-jogodehockeydosSenatorsquenuncavãoganharnada.

Ah, e o preço dos novos aluguéis em Ottawa também vem subindo vertiginosamente desde 2017. Proporcionalmente, talvez tenham subido mais do que os de Toronto nesse período. Bem como a dificuldade para conseguir uma moradia. Não é mais um lugar tão bom para começar como há alguns anos.

Fiz algumas apostas ao chegar aqui. A primeira delas foi ter feito o college de Interactive Media Design, acreditando ter chances de recomeçar do zero num país que não discrimina. Mas a realidade é um pouco diferente da propaganda de imigração. Os canadenses são seres humanos e, sim, sentem preconceitos e discriminam pessoas. E uma das discriminações mais fortes é a por idade. Ela está muito presente no trabalho, e mais ainda na área tech Ela é dominada por gente jovem. Há muitos jovens por aí cheios de amor para dar. Até com mais experiência do que eu. Para que empregar o coroa aqui?

Tentei o que podia. Fui a organismos de apoio a imigrantes, procurei agências de emprego, assisti a cursos e palestras, modifiquei meu currículo trocentas vezes, me candidatei a centenas de vagas. E nada. Num dado momento, passaram a não mais me chamar para entrevistas e precisei apelar para um trabalho de sobrevivência – caixa de supermercado – para pagar meu aluguel e minhas contas. Um trabalho difícil, desgastante fisicamente, deprimente e mesmo perigoso que afetou bastante meu bem-estar e minha saúde.

Aí tive que fazer uma reflexão com anos de atraso.

Quem sou eu? O que tenho de bom para mostrar?
Não sou mais um jovem segundo os padrões do mercado daqui e isso é uma desvantagem.

Tenho experiência acadêmica em Musicologia. Uma boa experiência. Fora da Academia, não tenho grandes coisas para mostrar.

Estou sentindo falta da vida acadêmica e quero voltar.
Há alguma coisa para mim nessa área em Ottawa?
Acreditei que havia.

Grande erro meu. Acreditei que pela qualidade do meu trabalho poderia contar com a volta à universidade a qualquer momento e em qualquer lugar. Mas não me aceitaram.

Em nenhum momento conversei com qualquer professor ou funcionário do único programa de pós-graduação em Ottawa onde poderia trabalhar, antes de chegar aqui. Se tivesse conversado e ouvido coisas como “seu doutorado sul-americano não te faz competitivo na América do Norte”, ou percebido que não havia tanto interesse assim por mim, jamais teria me decidido pela cidade.

Aí isso que imaginei que poderia acontecer em Ottawa aconteceu em Toronto. Apenas com uns poucos e-mails, o professor mais respeitado na área em todo o país queria trabalhar comigo. Lutaram para me ter, abriram uma candidatura para mim fora de época. A perda de Ottawa foi o ganho de Toronto, foi o que me disseram.

Porém, eu moro em Ottawa. O preço da moradia em Toronto hoje em dia dificulta uma mudança. E minha mulher tem um emprego full time em Ottawa. Esperava que eu conseguisse ir e voltar todos os dias em que tivesse atividades. Mas isso não é possível, em razão dos horários das atividades e da frequência dos trens.

Por enquanto, preciso continuar vivendo em Ottawa e viajar para minhas atividades. É algo cansativo e que demanda dinheiro, além de me atrapalhar de aproveitar a universidade ao máximo porque não posso comparecer a eventos e atividades extra-curriculares que podem ajudar no meu networking para o futuro. Pode até mesmo ser inviável, dependendo da carga de atividades e do calendário dos próximos semestres. E o inverno vem aí para complicar meus deslocamentos.

Mas há quatro anos, era possível alugar um imóvel em Toronto.

Não importa: já tenho plena consciência de que não vou muito longe em Ottawa e que meu futuro provavelmente não está aqui. A cidade, hoje em dia, é praticamente só um dormitório para mim.

Não se deixe levar por silêncio, tranquilidade, calçadas limpas e cenário de cartão-postal. Tudo isso é muito bom, mas não vai pagar suas contas e seu aluguel. Nem vai lhe dar prosperidade. Você precisa ir para onde as melhores e mais numerosas oportunidades estão. Do contrário ficará como eu, correndo atrás de moinhos de vento.

Falo isso com muita tristeza: seria ótimo que Ottawa pudesse me dar, e a qualquer pessoa, todas as oportunidades possíveis. Mas infelizmente ela, como várias outras cidades, não dará.