Nestes primeiros dias cursando meu segundo doutorado, agora na York University de Toronto, a vontade de observar tudo ao meu redor e comparar com as instituições brasileiras que frequentei é inevitável.

Não consigo me esquecer do professor de Ottawa que procurei em 2016 dizendo que meu “doutorado sul-americano” não me faria competitivo na América do Norte. Agora que estou tendo essa experiência, tento entender por que. Os programas daqui são tão melhores assim?

À primeira vista, a resposta é: não. Pelo menos com relação aos programas de pós-graduação que frequentei.

A principal diferença que tenho percebido está na infra-estrutura e na organização da escola e do programa. Tudo está lá, não é necessário improvisar. O sistema online Moodle traz todas as informações necessárias para cada seminário e as leituras exigidas estão lá. Pelo site da biblioteca é possível acessar inúmeros livros em formato e-book sem grande esforço. Por sinal, há livros! Os secretários do programa prestam todas as informações requeridas sem grandes complicações ou burocracias. As instalações estão em bom estado e funcionam.

Já no Brasil, tudo era improvisado. Como os programas de Música não dependem tanto de equipamentos e materiais como os de Exatas e Tecnologia, ou de Biologia e Saúde, a criatividade e o esforço individual de professores e alunos pode fazer milagres. O maior deles seria uma qualidade bem maior na formação de mestres e doutores do que se poderia supor.

Não acredite no discurso da discriminação e do desconhecimento preguiçoso que joga todos os doutores formados além dos limites do Canadá, dos Estados Unidos, da Europa Ocidental, da Austrália e do Japão na vala comum da quinta categoria! Um doutor formado pelos melhores programas brasileiros em Música é plenamente competitivo no mercado internacional. Em muitos casos, os professores têm plena consciência do que se demanda, fazem parte das melhores comunidades de pesquisadores e educadores do planeta e estão plenamente capacitados para preparar seus alunos e orientandos.

A formação que recebi na Escola de Música da UFMG e sobretudo no Programa de Pós-Graduação da UNIRIO foi de alta qualidade e sou muito grato aos professores com quem estudei. Eles são os principais responsáveis por isso e, movidos por sua paixão, fazem nascer flores num deserto onde dia após dia as condições de trabalho são mais desfavoráveis. Desde que entrei na universidade pela primeira vez em 1991, sou testemunha do descaso com o qual o governo federal brasileiro trata a educação. Verbas são cortadas, programas e projetos de fomento à ciência são extintos, bolsas de estudo deixam de ser oferecidas… mas esses e outros professores não esmorecem e seguem em seu duro sacerdócio. Até quando teremos gente assim nas nossas universidades, não se sabe. Por isso mesmo precisamos louvar e valorizar essas pessoas. Todos os dias.

Precisamos também manter nossas cabeças erguidas e aproveitar cada oportunidade para dar nosso melhor. Para mostrar aos estrangeiros que não se deve sair assumindo coisas somente a partir da nacionalidade da formação de alguém, sem qualquer exame do currículo e das potencialidades de cada pessoa.

Eu faço isso não só por mim, mas por cada colega que esteve comigo no mestrado e no doutorado, por cada novo mestre e novo doutor que virá, por cada funcionário, e principalmente por cada professor desses programas. Essa batalha é de todos nós.

(E mesmo estando longe, procuro ficar atento ao momento tão preocupante e difícil pelo qual a educação superior pública brasileira vem passando. Não posso virar as costas ao sistema educacional ao qual devo minha formação, e acredito ser obrigação de toda pessoa formada pelas instituições públicas lutar por sua sobrevivência e melhoria)