Abril de 2019. Dias negros na minha vida, sob o impacto das rejeições das duas universidades. Tentando digeri-las e encontrar alguma esperança de saída do supermercado. Com algo melhor engatilhado para mim. Tentei me candidatar a algumas vagas em lojas e fiz entrevistas, mas não fui selecionado. E tudo continuava do mesmo jeito, sem perspectivas.

Eu também havia feito um breve contato com o programa de pós-graduação em música da York University, em Toronto. Inicialmente buscando uma vaga de pós-doutorado, mas eles não tinham fundos para contratar um pós-doutorando. E no mesmo dia 12 de abril em que chegaram as rejeições, contactei o diretor perguntando a respeito de vagas para o doutorado. O período de candidaturas deste ano já havia sido encerrado, por isso eu estava pensando e perguntando a respeito de 2020.

No dia 18 veio a resposta, onde me foi oferecida a possibilidade de uma late application  (candidatura tardia) já para o ano acadêmico que se inicia agora em setembro. Todos os meus contatos com essa universidade haviam sido muito breves e jamais passaram da fase de sondagens. Não me candidatei a nada ali, até mesmo pelo fato de morar em Ottawa e da universidade estar localizada a 450 quilômetros de distância. Por tudo isso, minha resposta inicial foi cuidadosa. Disse que não queria dar trabalho a um comitê de admissões após o término da fase regular de candidaturas (na verdade, estava com medo de aceitar e ser rejeitado novamente por alguma razão). E foi aí que o diretor respondeu dizendo: “Se você quiser começar em setembro, o Professor Rock ‘n’ Roll gostaria de trabalhar com você”.

Uma breve pausa para eu lhes apresentar o “Rock ‘n’ Roll Professor”. Ele foi o pioneiro dos estudos sobre música popular na York University. Ainda na adolescência, ele passou a contribuir para uma revista de música. Entrevistou inúmeros artistas importantes e chegou a passar três dias acompanhando Bob Marley. Um caso raro de acadêmico com sólidas conexões com a indústria musical, ele vem escrevendo textos para contracapa de discos e envolvendo-se em projetos interessantes como a historiografia do icônico selo discográfico de soul music, Stax Records. Contribui com o Rock ‘n’ Roll Hall of Fame e, há mais de trinta anos, vem recebendo múltiplas indicações para o Grammy Awards. Recebeu um, em 1995. Esse histórico faz do Rock ‘n’ Roll Professor um dos principais nomes, se não o principal, da pesquisa acadêmica sobre música popular moderna no Canadá.

Eu havia feito contatos com o Rock ‘n’ Roll Professor, mas nada de muito profundo. Jamais poderia imaginar que ele teria interesse em me orientar. Após tantas rejeições que levei desde minha chegada ao Canadá, a situação onde eu tinha um professor desse calibre querendo trabalhar comigo e uma universidade dando todos os sinais de que me queria por lá era difícil de acreditar. Mas era verdade.

A vontade era de aceitar logo o convite e iniciar minha candidatura, mas havia um porém importante nisso tudo. A York University está localizada em Toronto e eu moro em Ottawa com minha mulher. Que tem um bom emprego por aqui. E, apesar de teoricamente poder transferir-se para Toronto na mesma empresa, não quer sair de Ottawa (eu sairia, mas é outra história). Sem falar na crise imobiliária do Canadá, onde o preço dos aluguéis está subindo descontroladamente e a situação está mais grave exatamente em Toronto. O que fazer então? A resposta: seguir vivendo em Ottawa e comprar um passe de estudante na Via Rail para ir e voltar de trem (a cerca de 9 dólares a viagem). Dormindo ocasionalmente em hotéis ou Airbnb de Toronto quando for preciso. Eu só preciso estar em Toronto dois ou três dias na semana.

Acredite: essa vida não é tão pesada como as horas que eu passava trabalhando no supermercado sem qualquer perspectiva que não aquela. Naquela velocidade extrema e naqueles horários irregulares. Permanecer num trem com wi-fi e espaço para estudar ou fazer qualquer outra coisa não é tão ruim assim!

Com isso, aceitei a oferta e minha late application foi iniciada. Embora eu ainda tivesse boa parte da documentação que utilizei para me candidatar à universidade local, precisei de três cartas de recomendação e tive de incomodar professores conhecidos que já estavam em férias. E ainda precisei fazer mais um exame IELTS para comprovar minha proficiência em inglês. Com isso, tudo se arrastou por mais de dois meses. Os dias pareciam intermináveis e lá estava eu na ralação do supermercado, desejando intensamente que tudo aquilo acabasse num piscar de olhos e eu estivesse de volta à carreira acadêmica. Mas a universidade lutou por mim. Cheguei a conversar por telefone com o diretor do programa de pós-graduação e aí expliquei a ele meu medo de abrir uma late application e mesmo assim ser rejeitado. Pois, apesar do meu currículo evidentemente mais recheado do que o de um típico novo doutorando, a universidade local me rejeitou. Ele respondeu assim: “Their loss is our gain. “ A perda deles é o nosso ganho. Pior para eles, que deixaram você passar. Nós não faremos isso.

Detalhe importante: como residente permanente do Canadá, eu teria direito a  funding (bolsa) e não precisaria pagar tuition fees. Na prática, receberia por mês entre duas e três vezes mais do que no supermercado. Mas haviam previsto  a entrada de seis novos doutorandos. Eu fui um extra que surgiu inesperadamente, e por isso precisaram reunir-se com os decanos para solicitar mais fundos para me acolher. No final deu tudo certo e no dia 2 de julho recebi a oferta de vaga, que aceitei prontamente.

Minha aventura começa em poucas semanas! E já deixei o supermercado. Decidi descansar e cuidar de mim por algumas semanas, pois aquela insanidade havia cobrado um alto preço para meu corpo, minha cabeça e minhas emoções. Nunca senti tanto alívio como quando terminei o último shift. Aquele capítulo difícil da minha vida estava acabando. Lutei muito para que isso acontecesse, e agora eu tenho mais uma chance de contribuir para este país podendo fazer a diferença. E fazendo algo de que gosto muito.