Como andava a minha vida no inverno de 2018-2019? Eu trabalhava como caixa de um supermercado e estava completamente sem perspectivas de melhora. Além da depressão batendo à minha porta, por uma série de fatores que renderão uma outra postagem.

Já tinha decidido que queria voltar à universidade, mesmo que precisasse fazer um segundo doutorado. Mas um conhecido me enviou uma postagem de vaga para pós-doutorado numa universidade Ivy League dos Estados Unidos.

Vale ressaltar que na América do Norte os pós-doutorados são um pouco diferentes daquilo que temos no Brasil. Não há aquela situação em que você se entende com um professor sênior e tudo é definido com a aprovação de um projeto feito pelos dois pelas agências públicas de fomento à pesquisa. Aqui um pós-doutorado é um emprego muito bem remunerado, apesar de temporário. Quem paga são as próprias universidade e os processos de candidatura e seleção são muito parecidos com os de um emprego qualquer. O departamento posta uma vaga e as pessoas se candidatam, enviando currículos e os demais documentos solicitados. É importante ressaltar que, ao contrário do Brasil, as universidades exigem cartas de recomendação para qualquer candidato a partir do Mestrado. 

Ao mesmo tempo, desenvolvi um plano B onde me candidataria ao segundo doutorado na mesma universidade local que visitei três anos antes e onde me foi dito que minha formação brasileira não me faria competitivo. Imaginei que, com meu currículo, seria aceito com facilidade. Não esperava ser aceito no pós-doutorado da universidade Ivy League.

Mas para encurtar a história, quase fui selecionado pós-doutorado e fui solenemente rejeitado para o doutorado na universidade local. De fato, ter integrado a short list da Ivy League com uma formação totalmente brasileira e quase ter chegado lá até foi um grande feito. Mas não resolveu o meu problema! Pelo contrário, isso amplificou a minha dor porque eu tinha consciência da qualidade do meu trabalho e as próprias respostas das universidades reforçam isso. Quando a Ivy League marcou a data da minha entrevista pelo vídeo, assim escreveram:

“Dear Alexei, the committee for the **** Postdoc in ****** met yesterday and I am happy to say that we were all impressed with your work and you made our short list.”

(“Caro Alexei, o comitê do pós-doutorado se reuniu ontem e estou feliz por dizer que todos ficamos impressionados com o seu trabalho e você é um dos finalistas”)

Fiz a entrevista e eles não mais entraram em contato. Da mesma forma a universidade local não se manifestou a respeito de minha candidatura, onde faltava a comprovação de proficiência em inglês (que poderia ser sanada depois). No mesmo dia, perguntei a respeito das candidaturas e ambas confirmaram as rejeições. A universidade local assim respondeu:

Dear Alexei,
Thank you very much for applying to the {PhD program in *****. I am sorry to inform you that we will not be able to offer you a place in the program for the coming academic year.  We had a large number of highly qualified candidates and, while the committee was very impressed with your work, we are, in the end, only able to accept a very small number of applicants.  This was a very difficult decision to make and the admissions committee wishes you the best in your future endeavors. We hope that you find a program that will allow you to continue to work in your area of interest.

(“Caro Alexei, agradecemos por sua candidatura ao doutorado em ****. Lamento informar que não poderemos lhe oferecer uma vaga no programa para o próximo ano acadêmico. Tivemos um grande número de candidatos muito qualificados, e, embora o comitê tenha ficado muito impressionado com seu trabalho, só podemos aceitar um número muito pequeno de candidatos. Foi uma decisão muito difícil de tomar e o comitê lhe deseja o melhor em seus projetos futuros. Esperamos que você encontre um programa que lhe permitirá continuar a trabalhar em sua área de interesse”)

Isso doeu, e como doeu! 12 de abril de 2019 foi certamente um dos piores dias da minha vida. Porque ser rejeitado, mas ser rejeitado quando ambos os comitês se dizem impressionados com meu trabalho, é particularmente doloroso. Ora, se gostaram tanto, por que não me oferecem a bendita da vaga??? Como se dão ao luxo de rejeitar um candidato que consideram muito forte? E pelas palavras desse comitê da universidade local, as portas estavam completamente fechadas para mim ali. Esperavam que eu encontrasse um outro programa.

É isso que dá chegar a este país desinformado e iludido, fazendo um planejamento errado.

A depressão se abateu pesadamente sobre mim. Me vi completamente sem chão, sem vontade de viver, e sem perspectivas que não ser caixa de supermercado. Um trabalho extremamente pesado e extenuante em todos os aspectos (físico, mental e emocional), do qual queria sair o mais depressa possível. Precisei inclusive recorrer ao programa de assistência aos empregados da própria empresa, que me pagou algumas sessões com um psicólogo. Eu não tinha nada que me desse um retorno de felicidade ou satisfação de estar fazendo algo relevante e digno do quanto me preparei pela vida. Mas precisava do dinheiro do supermercado e portanto seguia na batalha. Nenhum colega e nenhum cliente percebeu como eu estava me sentindo naquele período, e não sei como encontrei forças para isso. Fato é que passei por semanas terríveis.

Até o momento em que algo inesperado aconteceu…