Cheguei! Ou estou de volta, para os que já me conheciam de outros carnavais. Este espaço, onde eu mantinha meu portfólio de designer de mídia interativa, tornou-se obsoleto pelo fato de eu não mais trabalhar nessa área e por isso passa a partir de agora a abrigar este nosso cantinho de ideias e histórias.

Decidi começar a contar minhas histórias pelo assunto que dominou minha vida nos últimos meses: minha volta à carreira acadêmica após um afastamento de quatro anos. Ou melhor: nunca estive totalmente afastado da carreira acadêmica em razão da novela na qual o pós-doutorado que fiz ainda para o Brasil em 2014-5 se transformou. Mas isso é um outro assunto.

Da mesma forma que as escolhas erradas que fiz ao chegar ao Canadá, principalmente o programa de dois anos em Interactive Media Design que decidi cursar pensando em mudar de carreira, são um outro assunto. Mas por ora me resta dizer que, embora eu seja grato pelo que aprendi nesse curso, eu não deveria tê-lo feito. Deveria ter buscado voltar à carreira acadêmica desde o momento em que pisei aqui como residente permanente.

Da mesma forma, cheguei aqui desinformado a respeito das possibilidades e oportunidades para imigrantes doutores em Música no Canadá. A área por aqui é diminuta e o número de programas e professores é menor do que no Brasil. Da mesma forma, impera a ignorância sobre a real qualidade dos programas de pós-graduação brasileiros – onde, tal qual em ambos os que frequentei, a paixão e o esforço individual dos docentes se sobrepõem aos problemas institucionais e desafios. Como por aqui o mundo acadêmico ampara-se mais em networking do que no Brasil, um doutor que vem de um ponto do planeta que para muitos deles é remoto acaba enfrentando dificuldades extras.

Tomei consciência disso em 2016, quando quis abandonar o curso de Interactive Media Design e buscar oportunidades acadêmicas. Visitei uma universidade e, quando falei em pós-doutorado, o professor com quem conversei não fez rodeios: “Seu doutorado sul-americano não te fará competitivo por aqui. Acredito que você deveria fazer um segundo doutorado na nossa instituição.”

Do alto do meu currículo com participações em congressos internacionais e publicações fora do Brasil, meu orgulho levou um soco na cara. E mais do que isso, senti pelos professores que participaram da minha formação. Todo o esforço, toda a dedicação, toda a paixão para superar os obstáculos e trazer excelência para os programas pouco representa por aqui.

Acredito que o professor foi infeliz e pouco cuidadoso com as palavras, o que não se espera de uma pessoa de sua posição e ainda mais aqui, mas hoje entendo que o que ele fez foi bom. Mostrou-me a realidade como é e levou embora todas as minhas ilusões. O retorno não seria fácil.

Se eu tivesse uma boa rede de contatos na Academia canadense ou fosse um acadêmico com muitos trabalhos de relevância internacional (como a neurocientista Suzana Herculano Houzel, que transferiu-se da UFRJ para a Vanderbilt University dos Estados Unidos num movimento coordenado por colaboradores e amigos do mundo acadêmico), tudo seria diferente. Mas eu não tinha nada disso. Meu currículo de acadêmico e artista foi suficiente para me dar a residência permanente no Canadá, mas eu não tinha mais nada. Sem falar que desde o começo a escolha pela cidade onde moramos tornou-se um negócio fechado e eu não explorei outras opções, em outras cidades. Mais um erro, pois pensei que conseguiria abrir as únicas portas disponíveis por aqui com facilidade.

Mas ainda maior foi a ilusão de que eu poderia fazer um novo curso, mudar de carreira aos 44 anos e conseguir bons empregos por aqui. Isso é até possível, mas não é fácil. E numa área tech… bom, aí é quase impossível. Engana-se redondamente quem pensa que conseguir um emprego na área de TI, no Canadá, é fácil inclusive para quem imigra e recomeça. Não é. A concorrência por aqui é pesada, com profissionais de alto nível disputando as vagas. A cultura do país discrimina por idade, transformando pessoas de 45 anos em verdadeiros idosos. E o setor tech é dominado por jovens empreendedores e há muita gente jovem, nascida e crescida na era digital, na batalha. Sem experiência prévia e muita excelência para comprovar, meu amigo, você está fora. Só insista nisso se realmente tiver descoberto uma nova ou uma real paixão, e se for esse o caso trabalhe mil vezes mais duro do que a garotada de 22 anos com a qual vai competir por vagas.

Após mais de um ano de tentativas e tropeços que me obrigaram até mesmo a trabalhar como caixa de supermercado para sobreviver, percebi que não adiantava insistir. Procurei todos os serviços de apoio profissional ao imigrante, bati em todas as portas. E nada. Aí, no auge da depressão e da ausência de perspectivas, comecei a receber mensagens de acadêmicos brasileiros que queriam me agradecer pois meus trabalhos de dez anos atrás lhes serviram de referência em suas próprias pesquisas. Com isso, fui refletir e cheguei às seguintes conclusões:

  • Meu trabalho acadêmico havia sido relevante e estava incompleto, meio “abortado”. Senti que ainda tinha muito a fazer e a contribuir;
  • Se eu poderia mostrar uma experiência prévia de excelência, seria na carreira acadêmica;
  • Eu sinto falta da vida acadêmica, das pesquisas, do contato com os alunos de graduação, dos congressos e das publicações;
  • Se o meu doutorado brasileiro não me faz competitivo aqui por si próprio e se não tenho networking, preciso ir à luta para superar esses obstáculos e ajudar a mostrar como os canadenses estão enganados e pouco informados a respeito da qualidade de muitos programas brasileiros. Se eu precisar dar um passo para trás e fazer outro doutorado, que seja;
  • Sendo residente permanente, eu não preciso pagar tuition fees para fazer um doutorado por aqui. Tenho no caso os mesmos direitos das cidadãs e dos cidadãos canadenses, recebendo uma bolsa – aqui chamada de funding – que cobre essa despesa e corresponde às atividades de teaching assistant  (estagiário de docência) e equivale a mais de duas vezes o que eu receberia como caixa de supermercado ou em qualquer outro survival job  de salário mínimo. Para deixar tudo mais claro, eu receberia os valores das tuition fees mais a remuneração de teaching assistant.
  • Além dos fatores financeiros, há a óbvia satisfação por fazer o que realmente gostamos e saber que o trabalho pode ser bem relevante. Isso nenhum dinheiro compra.

Portanto, contemple a realidade se você tem um doutorado brasileiro completo mas está contemplando a possibilidade de deixar o Brasil em busca de uma vida melhor no Canadá e retomar a carreira acadêmica por aqui. Dependendo da área e da sua situação pessoal, você poderá ter de enfrentar desafios inesperados e dar passos para trás. Não se trata da lendária ausência de experiência canadense, mas sim de uma ausência de experiência brasileira ou internacional que seja relevante no Canadá. Não raro, por culpa deles mesmos.